
Hoje, sexta feira (10.10.08) está completando exatos dois meses que o esporte e o alunado do Instituto de Educação Régis Pacheco e a comunidade jequiéense perdeu um dos maiores desportistas do interior baiano, me refiro ao cidadão WANDERLY ANDRADE, ou simplesmente WANDÉ, ou ainda DECO como os mais próximos gostavam de lhe chamar.
O seu jeito brincalhão e moleque de ser conseguia conquistar até mesmo aqueles que diziam não gostar dele por que ele não dava abertura a determinadas pessoas que só se aproximavam dele em busca de algum beneficio, cidadão de coração bondoso dificilmente dava um não como resposta e sempre levava tudo na brincadeira sem mágoas no coração.
Lembro-me quando cheguei a Jequié vindo de Salvador no inicio da década de oitenta e fui apresentado a Wandé e o Sr. Nivaldo Santana (este também já partiu) por meu pai (este forma o trio que não está mais entre nós) e os dois olharam para mim aquele “moleque” magricela que mal conseguia ficar em pé e meu pai disse: “trouxe meu filho para poder treinar ai com os meninos de seu time Wandé”, ele olhou para mim de cima a baixo e virou-se para o senhor Nivaldo dando risadas, dizendo em seguida: “Baleia, você não está de gozação com a gente, está?” Meu pai ficou sem saber o por que da pergunta, mas eu sabia e nada falei os olhos encheram de lágrimas e fiquei esperando o desfecho da conversa entre eles, meu pai era árbitro de futebol e um conceituado desportista na cidade, já eu, ah! Eu estava chegando de Salvador e aqui quase ninguém me conhecia jogando bola a não ser uns poucos amigos do Fluminense de Guilherme, e Fita que tinha o seu Cruzeiro que disputava o campeonato da Escola Profissional de Menores (já extinta e hoje FUNDAC) e ainda amigos que batiam baba comigo quando aqui estava de férias no Rio de Contas e ainda na área existente na Grupo Escolar Ademar Vieira (ao lado da estação rodoviária) e ainda no campo entre muitas arvores existente onde hoje abriga vários quiosques e a vela cultural do Joaquim Romão.
Nem meu pai nunca havia me visto jogar, ele me levou apostando no escuro. Seu Nivaldo falou ao Wandé, “dá ao garoto o material e ver se tem alguma chuteira que dá nele, pois tem o pé pequeno” eu de imediato disse: “não se preocupem trouxe meu tênis, pois não sei jogar de chuteira”, foi riso para todo lado, mesmo assim me deixaram vestir o material, quando colocava nos pés os meiões percebi que os dois (Wandé e o senhor Nivaldo) olhavam para mim, quando saiu do treinador do time profissional da ADJ (Associação Desportiva Jequié) o seguinte comentário para Wandé e meu pai, o garoto pelo menos tem estilo para por o meião e com jeito de jogador vamos ver em campo. Ao me dirigir para campo, ouvir ainda quando Wandé disse ao senhor Nivaldo o moleque vai se machucar com queda toda hora, jogar em grama com tênis só vendo para crer ainda mais um moleque com este físico de ema. Nem para trás eu olhei seguir em direção ao campo onde ainda sem conhecer ninguém e todo sem jeito peguei uma bola e comecei a brincar sozinho até que um jovem chegou próximo e me disse que seu nome era Luisinho me identifiquei e começamos a bater bola e nisto os olhos de Wandé e do senhor Nivaldo eram direcionados para mim, batia bola e procurava me enturmar com Luisinho que veio a ser meu primeiro amigo no time.
Inicialmente fizemos um aquecimento para em seguida serem divididos os dois times, o principal e o de suplentes como eu era apenas um visitante fiquei no time chamado de baixo (reservas ou suplentes) e com trinta minutos mandaram passar para o time de cima, sei dizer que levei muita pancada, mas não desistia.
Ao fim do treino recebi o convite para retornar no dia seguinte e notei o largo sorriso no rosto de meu pai, ele nada me falou no trajeto Mandacaru (estádio) Joaquim Romão (casa), só meses depois é que fiquei sabendo dos comentários de Wandé e do senhor Nivaldo Santana, tinha que retornar a Salvador e houve um pedido de Wandé a meu pai para que eu continuasse só que precisava e tinha que retornar, pois na capital é que eu estudava e não podia abandonar tudo assim.
Só que no ano seguinte retornei e fui procurado por Wandé, no campo do IERP uma das grandes paixões de DECO, tínhamos de segunda a sexta um tradicional baba, ou seja, para ele treino do seu time, nos domingos nos reuníamos para os jogos pelo campeonato da cidade ou até mesmo do Joaquim Romão, daí surgiu uma grande e boa amizade.
Era difícil não ser amigo de DECO, é como eu brincava com ele sempre: “cara ou te amam ou te odeiam de vez, mais odiar por que? se você não faz mal a ninguém. Mas infelizmente vi ao longo dos anos que muita gente nutria por DECO um determinado ciúme por ele ser quem era e não ligar para nada.
Ele tinha um carro na época da “moda” um fusca que muitos diziam ser amarelo, outros gema de ovo e levávamos sempre na brincadeira, foi justamente no esporte que Wandé perdeu seu carro e não encontrou de ninguém o apoio para poder comprar outro carro e para se deslocar até o IERP ou os locais de jogos ia sempre de carona ou então de moto quando surgiu em Jequié o mototaxi na década de noventa.
Chamar alguém de psicopata era o seu grande divertimento, para isto só era preciso ele ficar sabendo que a pessoa falou dele ou de quem ele gostava, quando era mulher ele dizia sempre com um grande e largo sorriso nos lábios aquele lá é uma “cachorra” e não havia quem não risse dele. Nas viagens sempre alegrava o ambiente, mas também quando zangava (o que era difícil) todos tinham que ficar distantes dele para não destilar o seu veneno.
Com Wandé aprendir e conhecir o lado bom e ruim do esporte, ele fazia questão de alertar a todos como deveria ser caso quisesse ser alguém no mundo do esporte, conquistei vários títulos jogando na Desportiva, nome a que passou a ser chamado a ADJ quando o profissional ficou sem nenhuma atividade por mais de quatorze anos. Foi ainda com Wandé que tive a felicidade de pela primeira vez treinar uma equipe e com ela ser campeão da cidade, muito embora o time tenha sido foirmado por ele. O Junior da ADJ (Associação Desportiva Jequié) disputava o campeonato baiano da categoria e o outro quadro o campeonato da cidade, Wandé havia com o time conquistado o titulo de campeão do primeiro turno e em decorrência dos jogos do campeonato baiano a equipe ia desistir de disputar o segundo turno do campeonato da cidade, quando Antonio Araújo Lima (Art Dez) e sua esposa Stela Almeida, ficaram sabendo da provável desistência do time de Wandé e eles sugeriram por que você não coloca Sardinha para treinar o time e não abandonar o campeonato? Fui procurado por Wandé e de imediato topei o desafio, o time treinava junto com os juniores e profissionais e eu tinha que está no campo, pois ele não se metia em nada.
Campeão do primeiro turno fiquei com receio da galera relaxar e perder o segundo turno e quem sabe o titulo, só que na primeira conversa com o grupo percebi que eu era bem vindo e que todos queriam o titulo, tínhamos como grandes rivais na competição o Estudante que tinha um grande time, Mocidade Romântica de Manoel Vitorino, Curral Novo e Mandacaru além de alguns membros da diretoria da liga que torciam contra a Desportiva de todo jeito.
Fui colocando na cabeça dos jogadores que não podíamos relaxar e que deveríamos levar com mais seriedade ainda o segundo turno.
Ganhamos os quatro jogos da fase de classificação e como primeiro do grupo pegamos o Curral Novo de meu amigo Fal, no vestiário eu disse aos jogadores que Fal havia me dito que iria golear meu timinho e vencemos por 2 x 1 de virada. Depois nosso adversário foi o Estudante que tinha no banco como técnico meu amigo e mestre Waldemir Vidal (já tinha sido comandado por ele na equipe da Imprensa e sabia seu método de trabalho) que tinha em mãos um time de fazer inveja a começar pelo gol com Bonitinho (um dos melhores que vi jogar), nas laterais jogadores da seleção de Jequié e até mesmo profissionais na direita Marinho e na esquerda Pedro Macaco. Tinha ainda jogadores como Pelezinho, Ôla etc.
Viramos o primeiro tempo perdendo por 1 x 0, no vestiário falei para a turma que o Vidal havia feito gozação comigo a semana toda e que iria nos vencer de qualquer jeito. Falei ainda que para virar o jogo deveriam mandar a bola para o Marcos Vinicius, Nemias e Leli que eles resolveriam lá na frente, na primeira enfiada de bola para Marcos o goleiro adversário saiu vendido no lance e deu uma porrada no marcos sendo expulso com mais um em campo passamos a pressionar e aplicamos 4 x 1 no Estudante. Fomos para a final do segundo turno contra a Mocidade Romântica de Manoel Vitorino e se vencêssemos seriamos campeões, mais uma vez saímos em desvantagem no placar no primeiro tempo. No vestiário novamente falou alto o poder de mexer com os brios dos jogadores, falei a eles que nós estávamos jogando contra o bom time de Manoel Vitorino e ainda contra a torcida (o prefeito de Manoel Vitorino cedeu quatro ônibus para os torcedores) e dirigentes da liga.
Cobrei do grupo o empate com menos de quinze minutos para termos tranqüilidade e virarmos o jogo o que não foi possível, no tempo normal empate em 1 x 1, na prorrogação 0 x 0 com todos já desgastados fomos para a chatice de disputa em pênaltis. Na primeira série houve empate em 5 x 5, na segunda série 3 x 3 e na terceira série de cobranças alternadas olhei para o meio de campo onde estavam concentrados os jogadores das duas equipes e fiquei a me perguntar quem eu mandaria para aquela que poderia ser a cobrança decisiva, quando Jade (filho do meu amigo irmão Jonas Gatão) do meio campo fez sinal de positivo e apontou para o peito me pedindo para ser ele o cobrador. Com a cabeça fiz sinal de positivo, algumas pessoas que estavam no banco me acharam louco, por deixar Jade fazer aquela cobrança tão decisiva naquele momento (vale salientar que Jade era zagueiro e alguns diziam que ele era brabo e em certo jogo no Campo Aníbal Pires (Cururu) jogando no time de seu pai ele levou um tapa por uma jogada que havia feito errado e resultou em gol contra seu time). Não falei nada a ninguém e Wandé me chamou no canto e disse: “você está maluco? Este psicopata vai perder o pênalti e nós o titulo. Disse ao Wandé: DECO fique na sua o cara está confiante e eu também, Mocidade Romântica iniciou a série alternada e o goleiro Bocão defendeu logo o pênalti Jade nem na bola tocou deixou do jeito que o arbitro havia colocado na marca da cal, com calma ele partiu para a bola e colocou no alto, canto esquerdo do bom goleiro da Mocidade Romântica que nada pode fazer, ali foi só abraços”.
Na hora da foto pedi ao Wandé que fosse juntar-se ao grupo, mas ele disse que ali quem deveria ficar era eu pois fui eu que levei o time ao titulo e ele não sabia se ficasse à frente no segundo turno o time fosse o campeão. Ali aprendir mais uma vez o que é humildade e a maneira de tratar as pessoas, os adversários sempre eram vistos apenas como amigos do outro lado do campo, por que ele não dizia ter adversários em campo. Nunca ouvir Wandé mandar alguém bater em alguém mesmo que o time estivesse perdendo o que era muito difícil.

Até hoje dizem que quem jogou em time de Wandé era “galeto” só que o significado disto ninguém nunca teve coragem de dizer por medo, respeito ou sei lá o que.
Para concluir volto a dizer que diz que jogou bola nas décadas de 60, 70, 80 90 e até o inicio deste ano e não jogo em time de Wandé não jogou bola na cidade. Muito embora isto seja uma brincadeira, já que aqui tivemos e ainda temos pessoas envolvidas com o esporte da cidade que tem revelado bons nomes para o esporte de nossa cidade, estado País e do mundo. Pois estão aí Igor, Guilherme, Mantena entre outros que surgiram do futebol de bairro na cidade.
OBS.: WANDERLY ANDRADE (WANDÉ OU DECO), FALECEU EM 10.08.08 E FOI SEPULTADO NA TARDE DO DIA 11.08.08.